Física e Homeopatia
Edição 2004

Edimar Firmo

O físico alemão Walter Kaufmann (1871- 1947) chegou um pouco antes aos mesmos resultados do físico Inglês, Joseph John Thonson (1856 - 1940) e até mais precisos, sobre os raios catódicos. Mas não afirmou ter descoberto partículas menores do que o átomo. Foi influenciado pelo físico e filósofo austríaco Ernest Mach (1838 - 1916), que defendia ser “anticientífico” propor a existência de algo que não podia ser observado. Trope ou na filosofia e perdeu a chance de ser o descobridor do elétron.

Esta é uma das muitas histórias que envolveram a descoberta do elétron, partícula de carga negativa responsável pelos fenômenos elétricos e que habita o interior do átomo. A descoberta do elétron foi resultado de quase cem anos de parafernália experimental, muito papel e raciocínio de vários cientistas e ilustra bem o pensamento cientifico de uma época, sem relacionamentos experimentais e as contemporaneidades. Em geral, e até mais escancaradamente que o pensamento de Mach, os cientistas ainda hoje continuam a agir da mesma forma em muitos campos da ciência. Ora propõem o realismo descarteano, ora negam as evidências experimentais como fez Kaufmann com seus dados. Este ponto de vista realístico e preconceituoso tem sido a bandeira da ciência formal ao julgar os resultados experimentais da homeopatia. É bem verdade que esta ciência e seus resultados necessitam de formalização teórica conceitual de medidas físicas precisas, de experimentos até então não elaborados e observadores perspicazes. Mas é igualmente verdade que os resultados observados na homeopatia ao longo destes 200 anos, desde Hahnemann com suas dilui ões, falam por si só e exigem dos pesquisadores maior seriedade.

A homeopatia, modalidade terapêutica praticada há mais de duzentos anos, teve como fundador o alemão Sammuel Hahnemann. Está baseada na lei de similitude. Na homeopatia, substâncias submetidas a dilui ões seriadas, normalmente centesimais, e a sucussões (abalar) ritmadas (processo chamado dinamização) conservariam o poder curativo contra doen as de sintomas semelhantes aos que seriam produzidos pela mesma substância. Tal técnica, descrita na literatura homeopática como Dinamização, também recebe o nome de ultradiluição, diluição ultra-molecular ou UHD. Esta técnica é ilustrada na figura abaixo, na qual representamos a solução pela coloração escura, onde a tonalidade representa a concentração da tintura mãe que decresce da esquerda para a direita. Caso haja substâncias indesejadas estas são eliminadas durante o processo de diluição, aqui representada pelas estrelas pretas. Já as partículas responsáveis pelos princípios ativos da solução se mantém em menor número, no entanto com sua “potência” aumentada, isto é representado aqui pelo tamanho das mesmas, sendo que este aumento de potência é adquirido pelas dinamiza ões em cada etapa.

 

O interesse da física ao abordar o fenômeno homeopático se resume em responder a duas perguntas: 1) Existe a tal memória da água? Se existe qual o seu mecanismo físico responsável por ela?, 2) São as teorias físicas atuais suficientes para explicar o fenômeno homeopático?

Mecânica Quântica

Desta forma a física, ciência que lida, por excelência, com a matéria e a energia, se propõe a fazer a formalização teórica conceitual da qual carece a ciência homeopática, mas para isto é necessário o questionamento dos princípios sobre os quais estão alicerçadas as teorias atuais. Assim o escopo da física não explica, grosso modo por meio da teoria da mecânica quântica, e da mecânica estatística. A mecânica quântica se propõe a tratar dos fenômenos ligados principalmente a estrutura da matéria ordinária via conceitos de átomos, elétrons, moléculas e outras partículas elementares. A mecânica estatística se concentra em explicar os fenômenos de equilíbrio químico, térmico e outros.

Estes conceitos apresentam muitos problemas quando aplicados aos sistemas homeopáticos, como no caso o principio da incerteza da mecânica quântica. Este princípio foi postulado em 1927 pelo físico alemão Wagner Heisenberg. Segundo este principio, em uma experiência não é possível determinar exatamente o valor de duas variáveis de uma partícula, um elétron, por exemplo, simultaneamente com precisão absoluta. Existe uma incerteza mínima no processo de medida que é dada por, segundo Heisenberg, se a medida é efetuada em um intervalo finito. Existe uma incerteza na determinação da energia dada por

este princípio causou profundo impacto na física da época.

Sabemos que o principio da incerteza, serve como proteção na a mecânica quântica à medida em que estabelece limites mínimos para se conhecer com precisão uma medida física e este limite está vinculado à constante de Planck h cujo valor J.s. Esta constante tem valor muito pequeno como se nota, no entanto o valor é muito maior que a ordem das diluições homeopáticas. Isso permite levantar sérias duvidas quanto à aplicabilidade da mecânica quântica ao calcular a energia dos estados no sistema homeopático. Assim, por este e outros motivos somos levados a concluir que o sistema homeopático não pode ser abordado pela mecânica quântica, tendo o principio da incerteza como postulado uno, isto é, tal como o é interpretado atualmente.

Teoria Estatística

Outra maneira de se abordar os sistemas homeopáticos é pela mecânica estatística, mais especificamente pela teoria de flutuações e sua conexão com a teoria da informação de Shannom. A teoria da informação diz que a informação transmitida por uma fonte é dada por

que nos mostra, em principio sua vinculação com os conceitos de probabilidade, incerteza, e entropia. Pela teoria quanto maior a incerteza, maior é a informação que o sinal transmite, de forma que o princípio da incerteza de Heisenberg aqui deve ser abandonado, pois este estabelece um limite mínimo que esta vinculado à constante de Planck enquanto na teoria de informação, que trata com maior rigor a dependência do sinal com sua probabilidade de ocorrência não há este limite.

A teoria de flutuações que é uma vertente dos sistemas de termodinâmica de não equilíbrio e que diz que quanto menor for o número de graus de liberdade do sistema maior será as flutuações em seus parâmetros, físicos, energia, temperatura, densidade etc... de forma que nos pretendo somente na variação relativa da energia de um sistema, temos

onde N e o numero de partículas do sistema. Estas equações fornecem valores muitas pequenos, no geral desprezíveis para a matéria ordinária, mas valores muito grandes quando se trata dos sistemas homeopáticos. Observe que N aparece no denominador. Veja o exemplo numérico (Ex. 1) adiante.

As flutuações nos parâmetros do sistema homeopático também podem ser notadas além da energia que varia proporcionalmente com número com o inverso da raiz quadrada do número de partículas. O desvio relativo do número de partículas será dado por

que tende a zero com , se o N é suficientemente grande. No entanto, nos sistemas homeopáticos, onde N tende a zero, temos grandes variações no numero de partículas. As flutuações das densidades, desta forma, tornam-se exageradamente grandes nas vizinhanças de algum ponto crítico à medida que N decresce.

Em um sistema macroscópico, comum, somente, pequenas, flutuações são notadamente prováveis. Mas flutuações em larga escala são possíveis no sistema com poucos graus de liberdade, devido ao fato que a aplicação das leis da termodinâmica é totalmente incorreta.

Exemplo 1: Flutuações da energia

A teoria de flutuações, prediz que ocorrem oscilações da energia do sistema e que seus valores relativos são dados pela equação,

, para onde observamos sua dependência com a temperatura do sistema e também com o número de partículas presente. Esta equação prevê pequenos valores da energia relativa no caso de sistemas macroscópicos onde o número de partículas é grande. Mas prevê valores consideráveis, como o mostrado acima nos sistemas homeopáticos ´pois o número de partículas é muito pequeno.

Teoria Eletromagnética

Uma terceira interpretação física dos resultados da homeopatia pode ser feita pela teoria eletromagnética clássica, segundo a qual a polarizabilidade molecular pode ser expressa em termos da constante dielétrica, por

que é a equação de Clausius- Massotti. Ao observarmos esta equação vemos que N, o número de moléculas, aparece no determinador. Na matéria ordinária, onde pequenos volumes contém enorme número de moléculas, o valor da polarizabilidade molecular se torna pequeno, como observado experimentalmente. No entanto se N é pequeno, como nos sistemas homeopáticos onde o valor desta constante se torna consideravelmente alto, o que leva a surpreendentes resultados, e uma possível fonte de explicação da memória da água, das trocas de energia e da manutenção dos princípios ativos dos sistemas homeopáticos.

Bibliografia

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2 - CAPEK M.; El impacto filosófico de la física contemporánea; Editorial Tecnos; Abril ( 1973 )

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